
Traços
e Registros (Grupo
Comtempo)
A emancipação do olhar provocada pela fotografia e pelas trocas
culturais entre Ocidente e Oriente foram fatores decisivos para o nascimento
da modernidade e do questionamento do papel da arte e do artista no século
XIX.
De lá para cá, a fotografia se tornou uma linguagem independente,
despicturializou-se, assim como a própria pintura ou, ainda, a escultura,
que se desvinculou da estatuária. Questionada sua capacidade de “captar
o real”, no que ele tem de “mais verdadeiro”, parecia impossível
que à fotografia fosse reservado também o espaço polissêmico
da arte conceitual, espaço construído pelo olhar desde, pelo menos,
Man Ray, nos anos 1920.
Essas observações são importantes para a exposição
Traços e Registros que apresenta obras em fotografia de Desirée
Melo e de Herley Nicolau, em vídeo de Anderson Lima e em escultura de
Douglas Colombelli.
A partir de diferentes técnicas, as linguagens tradicionais passam por
um processo de desmimetização: ainda que apresentem uma relação
icônico-indicial, sua manipulação provoca efeitos de sentido
que vão além do que é reconhecido.
Para Desirée Melo, muito mais do que o corpo, importa a letra e sua capacidade
plástica. O mundo dos shopping centers é reduzido em suas cores
e possibilidades de consumo, tornando o signo gráfico matriz do visível
e do imaginário.
O trabalho de Herley Nicolau descentra o observador na medida em que as imagens
sobrepostas, o “modelo” e seu reflexo na transparência da vitrine,
não permitem que se afirme o que é o real e o que é simulacro.
O projeto 3x4 de Anderson Lima recupera o papel primeiro da fotografia, o registro
em close. Mais de 200 pessoas de diferentes idades, sexos e lugares são
postas em relação de continuidade, marcando suas diferenças
e, ao mesmo tempo, passando por um processo de perda e diluição
de identidade.
A rigor, a escultura não necessita da referencialidade, o objeto escultórico
existe independentemente dela. Douglas Colombelli recupera a figura da escultura
moderna e o desejo de dizer isto não é um corpo, “isto é uma
escultura”, (como fizeram seus precursores Rodin, Degas e Moore), expresso
na falta de polimento, na mistura de materiais, na exposição em
transparência do que está dentro da figura. Propõe-se a discutir,
assim, questões como a beleza, a dependência, os afetos do homem
contemporâneo, ainda que pudesse delas prescindir.
A exposição, como um todo, revela os diferentes sujeitos e o olhar
que eles dirigem ao mundo, destacando a possibilidade de ressignificá-lo,
inventando uma outra realidade, experimentada individualmente e mais livre de
dogmatismos.
Maria Adélia Menegazzo
Professora da UFMS e crítica de arte
Anderson Lima
Goio-Erê/PR, 1979.
Reside em Campo Grande desde 2000. É Bacharel
em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul. Artista e Pesquisador das Artes Contemporâneas
(tecnológicas e cênicas). Participa de
exposições coletivas desde 2001. Professor
de História da Arte na FACSUL. Membro fundador
do Grupo Comtempo (2002) – grupo de pesquisa
e produção de poéticas contemporâneas.
Desirèe Melo
São Paulo/SP, 1982.
Reside em Campo Grande desde 1989. É Bacharel
em Artes Visuais e Especialista em Imagem e Som pela
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Artista,
Pesquisadora e Professora das Poéticas Contemporâneas
nas áreas das Artes e Comunicações
(Curso de Artes Visuais da UFMS, Curso de Jornalismo
da UNIGRAN em Dourados e Curso de Decoração
de Interiores do Centro Universitário UNAES).
Participa de exposições coletivas desde
2001. Membro fundadora do Grupo Comtempo (2002) – grupo
de pesquisa e produção de poéticas
contemporâneas. Gestora de Artes e Cultura da
Secretaria de Estado de Cultura de Mato Grosso do Sul.
Douglas Colombelli
Campo Grande/MS, 1983.
É Bacharel
em Artes Visuais pela Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul. Artista e Pesquisador em Linguagens
Bi e Tri-dimensionais. Professor da área de
Plástica e Estética (Curso de Artes Visuais
da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul e Curso
de Decoração de Interiores do Centro
Universitário UNAES). Produtor de material cênico,
ator e artesão. Participa de exposições
coletivas desde 2001. Membro fundador do Grupo Comtempo
(2002) – grupo de pesquisa
e produção de poéticas contemporâneas. Único
artista do estado selecionado com duas obras para participar
da 8ª Bienal do Recôncavo Baiano (São
Felix - Bahia).
Herley Nicolau
Lins/SP, 1966.
Reside em Dublin - Irlanda desde 2003.
Fotógrafo desde 1980. Participa de exposições
coletivas desde 2003. Acadêmico do 2º ano
de Artes Visuais na Universidade Federal de Mato Grosso
do Sul.
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