
Stephan Hofmann
PONTOS DE VISTA é uma instalação fotográfica que
convida o observador a participar de um discurso com imagens em um espaço.
Segundo a regra da perspectiva, quadros
do mesmo tamanho, colocados num espaço, em distâncias
diferentes do olho do observador, aparecem em tamanhos
diferentes - o mais perto maior e o mais longe menor.
“Pontos de Vista” “quebra” com
essa regra. Através da inversão do princípio,
compensando o tamanho dos quadros (ampliação
do quadro mais distante e diminuição
dos quadros mais próximos), chegamos ao ponto
onde o quadro completo é visível, ainda
que ele venha a se compor de vários segmentos,
em distâncias diferentes.
O resultado é uma vista “irreal” da
obra completa, uma composição dos seus
fragmentos para um quadro integral. É função
do observador buscar o ponto de vista único
para cada obra.
São 14 obras, cada uma delas
dividida em dois ou três fragmentos. Esses fragmentos
de imagens são colocados de forma aparentemente
caótica mas, em verdade, cada fragmento faz
parte de uma ordem de alta precisão. A instalação, à primeira
vista, suprime os princípios da geometria, mas
na realidade, ela é baseada em regras de perspectiva,
trabalhando com o ângulo de visão natural
do nosso olhar. O posicionamento dos fragmentos no
espaço, seus tamanhos e a distância entre
eles permitem a percepção de cada obra,
inteira, de apenas um único ponto de vista. É o
observador que deve buscar esses pontos no espaço
para visualizar a imagem como um todo e, então,
completar as obras. Assim, ele faz parte da obra e
se torna executor do processo artístico.
As obras foram fotografadas entre
os anos de 2004 e 2006, especificamente para a realização
desse conceito. São motivos abstratos, escolhidos
pelas suas características específicas,
principalmente pelas suas linhas rígidas, que
permitem uma realização exata do conceito.
São motivos de “arquitetura” -
tanto criados pela natureza, quanto pelo ser humano,
Todas as fotos foram tiradas em lugares do Estado de
Mato Grosso do Sul.
Crítica
Desde a hora em que nasceu, ela
[a fotografia] se faz passar pela pura captação
do real, pura reprodução, ela faz acreditar
no real, quando na verdade é construída
pelo olhar e adquire forma por meio de uma técnica.
Jacques Leenhardt
Fotografia e manipulação
parecem sinônimos a se aceitar a falta de inocência
do olho humano. Quem olha já constrói
sentidos de antemão e a partir deles ressignifica
o mundo, uma operação que parece se acentuar
de forma consciente na sociedade contemporânea,
fundamentada na imagem que também passa, agora,
por transformações indiscutíveis
(ou não?) do grão ao pixel. As exposições
de fotografia trazem, como nunca, implícitas
em sua natureza, os modos de percepção
e de apreensão do real. Assim, se toda fotografia é um
simulacro daquilo que representa, o espaço por
ela construído também o deverá ser.
A exposição Pontos de vista trata da
construção desse espaço e das
operações lúdicas propostas pelo
olhar de Stephan Hofmann, cuja obra transita com facilidade
pelas duas vertentes fotográficas anunciadas
na epígrafe: reprodução e invenção.
Cada obra está recortada em fragmentos que,
distanciados ou aproximados, convidam o observador à produção
do sentido, a depender de suas escolhas e combinações.
Se o tamanho do fragmento pode induzir a uma suposta
hierarquia, a justaposição das partes
poderá eliminá-la. Simétrica ou
assimetricamente, as imagens vão se apresentando
com um apelo narrativo interrompido pelo corte preciso,
evocando, antes, um estado e não uma ação,
uma transformação. Desse modo, uma banal
folha de bananeira ou um tosco pedaço de pau
adquirem um sentido estético ao serem desvinculados
do todo a que pertencem e submetidos a um jogo de linhas,
sombras e cortes, que enfatiza sua materialidade, malgrado
o resultado abstratizante. O espaço visualmente
construído se sustenta, assim, sobre esses elementos
(luz, sombras, linhas, cores, distâncias) que
controlam a eficácia do efeito estético
sobre o objeto fotografado.
Os pontos-de-vista de Stephan Hofmann retomam o sentido
mágico das relações da fotografia
com a própria linguagem fotográfica,
interferindo no nosso modo de pensar essa arte como
documento da realidade. Uma poética do recorte
se afirma nesta exposição, seja no aumento
da escala, no jogo entre cheios e vazios ou na plasticidade
diferenciada de objetos comuns, periféricos
numa escala de valores da sociedade de consumo, o que
nos obriga a repensá-los envolvidos no silêncio
em que agora se encontram.
Maria Adélia Menegazzo
Professora da UFMS e crítica de arte
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