
O desafio da abstração
A natureza do abstracionismo desafia
constantemente nossa capacidade de perceber as possibilidades
da representação artística, transformando
imagens em enigmas e apresentando formas radicalmente
inéditas na maneira de revelar as experiências
do mundo. A partir dos primeiros anos do século
XX, a arte abstrata coloca em dúvida a idéia
de que a pintura e a escultura eram meios para retratar
a realidade do mundo por meio da imitação
ou da representação ilusionista da natureza.
Essa transformação no modo de representar
a realidade surge da inquietação dos
artistas que buscavam se libertar das limitações
da linguagem figurativa, além disso, havia a
necessidade de se considerar novas realidades reveladas
pela ciência, pela matemática, pela física,
pela psicologia, pela política e pelas grandes
mudanças na tecnologia industrial.
“Toda arte é abstrata, no sentido de que toda arte se envolve
no mundo e nos aspectos abstratos dele para apresentar um objeto ou acontecimento
que aviva ou ilumina nossa apreensão do mundo”, escreveu Mel Gooding
como introdução ao seu estudo sobre arte abstrata. Uma afirmação
que amplia o enfrentamento da complexidade da arte e as possíveis leituras
nas diversas manifestações e linguagens artísticas.
De certa forma, nem sempre é possível
conseguir desvelar totalmente os mistérios de
uma obra de arte, sendo ela figurativa ou não.
Para Lacan “todo quadro é uma armadilha
para o olhar”. Uma armadilha que, não
sendo devidamente avaliada, pode aprisionar a percepção
do observador criando obstáculos para o entendimento
daquilo que escapa das convenções da
tradição.
Esse exercício de buscar escapar do lugar comum
da representação figurativa pode ser
notado na produção pictórica de
Marise Anzoategui. As pinturas são o resultado
do processo de experimentação nos procedimentos
de pintar da artista, da liberdade que conduz aos limites
do esforço nas tentativas, erros e acertos.
Marise faz uso constante da estrutura abstracionista
geométrica criando momentos em sua obra que
transitam entre tensão e relaxamento, entre
luz e sombra, entre força e sutileza. A dinâmica
dos tons contrapõe-se às faturas que
servem de base da imagem, um jogo que proporciona ao
espectador perceber alguns elementos da arquitetura
de construção de cada obra. As muitas
camadas de cores dão a medida da massa pictórica.
As linhas delimitam o espaço da pintura ou podem
também conduzir o olhar para além do
suporte. A regra é não ter limites. Tudo
pode ser uma possibilidade nesse sistema especulativo.
Pintar passa a ser a experiência do “descompromisso”,
do imprevisível. Alguns grafismos são
inseridos na pintura e dão a desordem necessária
para romper a aparente monotonia geométrica.
Assim, a arte abstrata de Marise Anzoategui evolui
gradativamente em seu processo investigativo, conduzindo
possibilidades de significação nas representações
das formas, dando medida à complexidade do processo
poético da obra que se explica e se questiona
ao mesmo tempo.
Rafael Maldonado / Fevereiro de
2007
Marise Helena Noronha Anzoategui
Natural de Campo Grande-MS.
Participou do curso básico/técnica behaviorista
com 2 anos de duração com o artista plástico
José Manoel de São Paulo, curso “O
Processo Criativo” com Charles Watson, curso
de texturização contemporânea em
2005 com Ulisses Eduardo de Andrade Filho e curso da
Funarte 2005 (projeto artes visuais) - oficinas e palestras
com Daniel Feingold e Mariza Veloso.
Realizou exposição no Espaco Memory em
Campo Grande-MS em setembro de 2003. Participou da
exposição coletiva “Diálogos
Contemporâneos” em
2004 no MARCO - Museu de Arte Contemporânea de
MS.





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