
A nossa relação com
o nosso meio ambiente é constantemente
mediada por imagens que geramos e manipulamos internamente
(mentalmente) ou externamente (graficamente, pictoricamente,...)
e com as quais representamos esse meio ambiente. Na
contemporaneidade, aos processos artesanais de representar
externamente somam-se aqueles por meio de máquinas.
Dentre essas, as que se utilizam de tecnologia digital
têm um modo próprio de representar, além
de externamente, internamente. Tal como no nosso sistema
humano/orgânico as imagens armazenadas nas máquinas
têm a característica de registros de memória,
virtuais em relação às
possíveis atualizações.
Cada tipo de imagem que resulta dos avanços tecnológicos é responsável
por um “modo de ver” que incide, de um lado,
sobre aquilo que representa e, de outro, sobre aquele para quem representa. Os
novos tipos de imagem incidem, portanto, sobre a nossa relação
perceptiva com o nosso meio ambiente; consequentemente, sobre nossas significações
do mesmo. No campo da arte, paralelamente ao desenvolvimento das tecnologias
que incidem sobre os modos de produção de imagem, há uma
tendência para o desenvolvimento de experimentos artísticos com
imagens instrumentais.
Alex Maciel se insere nessa tendência. Na obra “A Máquina
divisão” o artista nos apresenta imagens, criadas artesanalmente,
ocultas sob vidro preto de modo que não podemos vê-las a olho nu
(apenas nosso próprio reflexo no vidro quando estamos diante delas). Em
seguida, as mesmas imagens são mostradas em um monitor de televisão,
após terem sido captadas por uma câmera filmadora cujo “olho”,
diferentemente do nosso, está munido com recursos para filmar com infra-vermelho.
Para essa câmera o vidro preto não funciona como um obstáculo à visão,
de modo que ela pode ver o que está por trás e, após essa
mediação e a da televisão, nós também vemos.
O que essa estratégia artística flagra, entre outras coisas, é o
fenômeno da percepção instrumental (da máquina) como
outra para nós. A máquina é o outro que capta e interpreta
segundo recursos próprios algo a que não temos acesso de outro
modo. Curiosamente isso tanto nos aproxima quanto nos distancia da coisa representada.
O objeto de interesse dessa obra não são as imagens em si ou o
modo como elas “percebem” o ambiente, mas, o modo como elas, ao tempo
em que nos fazem ver as coisas sob outra óptica nos fazem ver, também,
o quanto nossa percepção (humana) do mundo está ora transformada
ora subjugada pela das (nossas) máquinas. Ao mesmo tempo, o quanto nós
enquanto sujeitos inseridos na atual “cultura tecnológica” nos
distanciamos da nossa condição anterior a ela. E, ainda, o quanto
essas imagens têm o poder de funcionarem para nós como a própria
realidade, dado que perdemos a referência de como essa poderia ser de outro
modo. Também é significativo o fato de o artista ocultar justo
imagens artesanais, representantes da nossa condição tecnológica
anterior à atual e de um outro modo de ver.
Eluiza Bortolotto Ghizzi,
arquiteta,
mestre e doutora em Comunicação e Semiótica,
professora do Departamento de Comunicação
e Arte da UFMS. ghizzi@nin.ufms.br
abril de 2007





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