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A folia na arte de Genésio Fernandes

Quantas leituras possíveis podemos fazer diante de uma obra de arte? A resposta, embutida em sua complexidade, traduz uma das qualidades mais preeminentes da arte: a generosidade.

Toda obra de arte é, pela natureza de sua concepção, generosa. Por essa razão temos total liberdade para apreciar, interpretar, discutir e até mesmo questioná-la. E, nesta generosidade, ela permanece imersa em “total silencio” esperando pelo nosso julgamento. Sendo assim, pode-se estabelecer que inúmeras sejam as leituras permitidas, cabendo, apenas a nós, conseguir extrair o maior número de mensagens contidas em cada objeto de arte que nos é apresentado.

Os desenhos e pinturas da série Figuras da folia, de Genésio Fernandes, são um exemplo dessa grandeza. A ambigüidade se instala já no título do conjunto, uma vez que o assunto folia imediatamente nos remete ao sentido de euforia e de diversão, embora a estranheza dos personagens de Genésio nada contribua para uma sensação de alegria.

A dramaticidade representada através de uma densidade tonal revela seres que traduzem uma perplexidade beirando o grotesco, um estado de “horror” que os personagens carregam na deformidade das expressões e dos gestos, realçado pela combinação das cores que dão o clima contido a uma suposta comemoração.

Os foliões de Genésio desfilam em meio a um ambiente emblemático e sem cenários reconhecíveis que simplifiquem o ato de interpretação estética. Máscaras, alegorias, bailes e blocos de carnaval ilustram este ciclo de obras em que a presença da memória corporal se acomoda pelo suporte do papel. Qual será a fantasia do expectador?

Assim, a habilidade de Genésio com o desenho faz com que a série Figuras da folia seja um agradável encontro com a plasticidade e o livre descompromisso com a forma. Lisette Lagnado escreveu no livro Leonilson: são tantas as verdades que “o desenho, na arte contemporânea, é um gesto que transcende a convenção do suporte e da técnica”. Uma afirmação indicativa de que o artista, nos dias atuais, deve saber lidar com estas categorias para conduzir de forma competente a confecção de sua obra.

É esta qualidade de quem tem a intimidade com os procedimentos do fazer artístico, comprometido com o desenvolvimento constante da linguagem e da erudição necessária para sustentar constantemente a força de uma produção, que identificamos no trabalho de Genésio Fernandes.

Rafael Maldonado
Maio de 2007

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Genésio Fernandes, José (Maria da Fé, MG, 1946). Artista plástico, pinta desde 1967. Em 1970, participou do curso Pintura-Iniciação no Festival de Inverno de Ouro Preto/MG, obtendo Primeiro Prêmio. Em 1974, formou-se em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Itajubá/MG. Em Rio Branco, entre 1977/79, atuou no Departamento de Assuntos Culturais do Acre, fundou a primeira Escolinha de Arte do Estado, escreveu sobre a arte local e organizou exposições. Entre 1979/82, fez mestrado em Teoria da Literatura na Universidade Federal de Pernambuco – UFPE, Recife, escrevendo sobre Osman Lins. No período de 1983/84, atuou no Campus Avançado da Universidade Federal do Acre – UFAC, em Xapuri. Depois, quando voltou a Rio Branco, lecionou na UFAC e atuou no movimento cultural até 1990. Reside em Campo Grande desde 1991, onde lecionou no Curso de Letras e de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS. Atualmente, leciona ainda no Curso de Letras e na Pós-graduação da UFMS e organiza a revista Rabiscos de Primeira, destinada a publicações de trabalhos acadêmicos de alunos. Em 1996, faz doutorado na Universidade de São Paulo – USP, dedicando-se à Semiótica do texto e aos estudos das práticas de leitura da paraliteratura. Em 1998 submete-se a uma banca examinadora da USP, obtendo bolsa de um ano em Paris, onde estuda, realiza pesquisas em bibliotecas e visita museus. Em setembro de 2000, conclui o Curso de Doutorado. O artista recebeu os seguintes prêmios:
Primeiro Prêmio no Salão de Artes do Diretório Acadêmico da Escola de Engenharia de Itajubá/MG (1972); Terceiro Prêmio “Federação das Indústrias do Estado de Mato Grosso do Sul – FIEMS” no X Salão de Artes Plásticas de Mato Grosso do Sul - MS (1997) e Segundo Prêmio “Governo do Estado de MS” no XI Salão de Artes Plásticas de MS (1998).
Participou de diversas coletivas, destacando-se: Pintores Acreanos em Brasília (1978); XII Salão de Artes Plásticas da UFPE, Recife (1981); exposição Mestres e Contemporâneos, Galeria Rodrigues, Recife (1980); Galeria 3 Galeras, Olinda/PE e Galeria Sol, São José dos Campos/SP (1984); Galeria de Arte da UFAC, Rio Branco (1986); XII Salão de Artes Plásticas de MS, Campo Grande (2001).
Expôs individualmente na Galeria do Hotel Chuí, Rio Branco (1977); no Centro de Artes e Comunicação da UFPE; na Galeria Rodrigues, Recife (1980); na Universidade da Flórida/EUA, em Miami, em Gainesville e em Telahasse (todas em 1987); na Galeria de Arte da UFAC, Rio Branco (1991 e 1994); na Galeria do Banco do Brasil (1993); no Museu de Arte Contemporânea – MARCO (1995); na Morada dos Baís (1996) no Centro Cultural José Octávio Guizzo (2001); na Galeria do SESC/Horto de Campo Grande (2002); no Museu de Arte Contemporânea-MARCO com um “Panorama retrospectivo” (2003) e com “Desenhos – série erótica” (2004), entre outras.
Em 2003 e 2004, o Museu de Arte Contemporânea-MS incorporou ao seu acervo mais de 120 obras, realizadas em diferentes épocas, doadas pelo artista, que possui também obras em diversas coleções particulares. Em 2005, participa da coletiva organizada pela prefeitura de Campo Grande, na Estação Ferroviária. Em 2006, expõe em Dourados em evento organizado por Paulo Rigott; e, na UNAES, em evento organiza por Jonir Figueiredo. Em 2007, doa ao MARCO, duas obras da fase Acre/década 1980/1990. Em 2007, expõe no MARCO uma série de pinturas intitulada “Figuras da Folia”

 

 

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