
A DIVISÃO DE MATO
GROSSO QUADRO A QUADRO
Por Maria Adélia Menegazzo*
Todo narrador é um sedutor
a quem é dada a tarefa de enunciar um discurso.
Não um discurso qualquer, mas o discurso de
um ponto de vista. O artista é um narrador que
imprime sentido estético ao fazer humano. Assim,
ele é um narrador privilegiado, pois traduz
os fatos seduzindo o leitor-contemplador, ao mesmo
tempo em que nos oferece a possibilidade de dialogar
com seu objeto.
Quando o fato a ser traduzido é parte construtiva
da história político-cultural de um povo,
o cuidado do artista é redobrado, pois há que
se servir do fato sem reduzir-se a ele. A história
não determina a obra mas passa a ser objeto
de reflexão do artista. O resultado é tanto
mais importante quanto mais afastado se encontre da
mera reprodução, isto é, quanto
mais a obra favoreça a presentificação
histórica transformando referenciais diretos
em referenciais estéticos.
A Lei Complementar n° 31 de 11 de outubro de 1977,
dividiu o Estado de Mato Grosso, criando o Estado de
Mato Grosso do Sul. Muitos historiadores contaram o
fato ao longo desses anos, registrando imagens de um
movimento separatista a partir do início de
nosso século. Desde embates político-ideológicos
a determinantes económicos, contaram que muitos
foram, também, os confrontos armados na luta
pela separação sulista.
No entanto, a divisão foi concretizada por decreto,
pelo governo militar de então, retirando das
mãos do povo a tarefa por ele iniciada. Favoreceu,
desse modo, uma multiplicidade de visões e sentimentos
em relação ao fato, que não se
pode ignorar.
Em 1978, ano da implantação do Novo Estado,
o artista plástico Humberto Espíndola,
que já se firmara nacional
e internacionalmente com sua Bovinocultura, traduziu
e sintetizou plasticamente a história da Divisão
em uma série de quadros.
Enquanto narrador privilegiado, um campo-grandense
que se encontrava em Cuiabá quando da divisão,
Humberto Espíndola oferece um verdadeiro roteiro
estético-histórico do fato, através
da pintura, desafiando seus limites, reforçando
a autonomia da linguagem artística e humanizando
o sentimento popular.
A importância dessas obras não pode ser
desprezada, uma vez que os quadros da série
Divisão de Mato Grosso são parte fundamental
da história e da cultura sul-mato-grossenses
e que, pensamos, deveriam ser de domínio público.
Fiel à marca da Bovinocultura, Humberto Espíndola
atribui ao boi o papel de narrador principal da história,
manipulando suas máscaras, variando-lhe os sentidos
de acordo com o contexto.
Temos aqui o fim de uma história contada por
meio de uma narrativa plástica. Muito pode estar
faltando nessas nossas leituras visuais, mas é no
prazer da falta e na necessidade de estar sem pré buscando
o seu preenchimento, que se encontra o prazer estético.
A riqueza da linguagem de Humberto
Espíndola favorece a busca com persistência,
garante a continuidade na incompletude, permitindo
transgressões infinitas nas travessias do sentido.
Vale a pena tentar.
(Texto redigido em 1998)
*Maria Adélia Manegazzo é Crítica
de Arte, Membro da ABCA - Associação
Brasileira de Críticos de Arte, Membro do Conselho
Curatoriai do MARCO, Doutora em Teoria Literária
e Literatura Comparada pela Faculdade de Ciências
e Letras de Assis - UNESP, coordenadora do Programa
de Mestrado em Estudos de Linguagem-DLE/CCHS, professora
do Departamento de Letras da UFMS.
Humberto Espíndola, o
primeiro artista do Centro-Oeste brasileiro a se projetar
nacionalmente, é responsável pela descentralização
da arte brasileira, chamando a atenção
da melhor crítica de arte brasileira para fora
do eixo São Paulo-Rio. Com sua "Bovinocultura" falou
da cultura e da gente mato-grossense para o Brasil
e para o mundo através de seus prémios
nos mais importantes salões brasileiros e participações
em bienais internacionais. Sempre atento a sua terra,
Espíndola não deixou passar o episódio
da Divisão de Mato Grosso sem um registro histórico
para a iconografia de nossa cultura: sua série
de oito obras abordando o assunto na época do
fato político é o único
documento plástico, constituindo-se em preciosa
raridade para a cultura sul-mato-grossense como hoje
o é, por exemplo, a obra"OGritodoIpiranga",
de Pedro Américo; para o estudante brasileiro
no episódio da Independência.
Tais obras devem portanto pertencer ao património
público, bem como ficar a disposição
da comunidade em museu ou outro lugar de acesso público.






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