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Apontamentos sobre três décadas de artes plásticas em Mato Grosso do Sul

Nesses trinta anos de Mato Grosso do Sul fomos desenhando, num ritmo muito peculiar, um perfil social que traduz nossa vocação para uma heterogenia identitária, assimilando do lugar estratégico entre fronteiras geográficas tão marcantes, elementos que se tornaram importantes e necessários para a construção de repertórios culturais repletos de valores e nuances de sentidos.

A bagagem cultural acumulada durante esse tempo, deve ser usada como ponto de partida para possíveis interpretações analógicas, efetuando leituras que pretendem avaliar as manifestações e as heranças que foram aqui constituídas em períodos distintos no desenvolvimento do Estado.

Sobre a perspectiva do início de formação de uma cultura sul-mato-grossense e os desafios gerados com a criação de uma nova realidade sócio-histórica, Aline Figueiredo escreveu “a situação artística no sul do Estado, no momento de sua divisão, é de se lamentar frente às grandes perspectivas que tal evento descortina. Entretanto, existem artistas e intelectuais campo-grandenses, produtos de uma circunstância que se revelou de valor histórico. A oportunidade que tais elementos possam vir a ter é de fundamental importância para um florescimento cultural realmente de interesse e nível nacional”. (1979: 180)

Partindo desse ponto e com a vontade de querer entender como se deu esse desenvolvimento cultural, formulam-se duas importantes questões: é possível definir a identidade das artes aqui produzidas nas três últimas décadas? Teríamos um escopo regionalista na representatividade dos artistas locais ou não?

São perguntas interessantes de se perceber devido à forte influência da paisagem pantaneira e dos costumes da região tão presentes no conjunto da produção artística. E sobre essa realidade Maria Adélia Menegazzo bem comenta que “o regionalismo é assim o local da cultura e a cultura local ao mesmo tempo. Isto é, não só se apresenta como objeto da cultura, como também representa a cultura de um determinado objeto” (2003: 161). Somos, assim, o reflexo daquilo que nos cerca.

Pensar uma mostra de artes plásticas que pudesse refletir esse processo de modelação contínua da identidade plástica sul-mato-grossense, possibilitou a percepção do lugar sensível da curadoria como mediação e reorganização histórica dos procedimentos artísticos que formam um significativo patrimônio material, com o seu espaço conquistado e legitimado na memória de todos nós.

Para esse recorte curatorial optou-se por uma seleção de artistas que não seguisse uma cronologia rígida, mas sim, que as obras aqui reunidas pudessem dar conta da representação dos signos da matéria artística desenvolvida em três décadas, no espaço/tempo que nos cabe na geografia do centro-oeste brasileiro. Mesmo porque, se quiséssemos de fato localizar e delimitar historicamente as artes plásticas de Mato Grosso do Sul, indubitavelmente não poderíamos fazê-lo sem antes recorrer aos anos que antecederam o episódio da criação do Estado.

De modo que, os trinta artistas que compõem esse panorama, foram divididos em quatro eixos temporais, observando-se a relevância da obra de cada um nos períodos definidos pela curadoria que formatou a mostra em quatro módulos: artistas da tradição, geração anos 80, geração anos 90 e artistas a partir do ano 2000.

Definir elementos de uma tradição para contextualizar aquilo que se formou antes, ou o que serviu como referência para a elaboração do novo, é um exercício que amplia o entendimento daquilo que realmente tem importância como ponto norteador de concepções estéticas. A valoração do status que define essa tradição contém a carga histórica necessária para a legitimação do passado na formação de uma memória. E é na memória que recebemos como herança que se encontra o embrião do nosso DNA cultural.

No caso das artes plásticas local, o embrião dessa tradição nos movimentos artísticos surge na figura de Humberto Espíndola que, com uma produção latente e inovadora para os anos 70, projetou para o Brasil uma região ainda então desconhecida, fazendo com que a crítica especializada olhasse para dentro dos limites do centro do país. Com uma obra plena de elementos que traziam para discussão problemáticas sócio-econômicas, Humberto Espíndola foi por muito tempo a principal referência para os artistas que se seguiram nas décadas posteriores, tanto em Mato Grosso quanto em Mato Grosso do Sul.

Fundamentado no mito bovino, o artista estabelece relações simbológicas que se desenvolvem em diversos suportes e séries com variações sobre o tema. “Desde a primeira fase de sua pintura, o animal se constrói e se fragmenta, recebe máscaras, é humanizado, divinizado, mas não abandona seu espaço” (MENEGAZZO, 1991: 207). A bovinocultura alcança um território universal, dotando a figura do boi de valores humanos expressos através de situações que exemplificam o interesse de relato da realidade pecuarista da região.

Com temas baseados na geografia pantaneira, na representação da cultura indígena e assuntos de cunho social, a tradição aqui também é exemplificada nas obras de Jorapimo, Mary Slessor, Ilton Silva, Vânia Pereira e Júlio César Alvarez.

Segue-se com a produção nos anos 80 onde encontramos elementos que fortemente estão relacionados com a presença da iconografia indígena, grande inspiração para alguns artistas desse período. O geometrismo abstrato aparece para melhor ilustrar a simbologia das nações indígenas kadiwéu, terena e guarani. A arte sul-mato-grossense atravessa um momento intenso de buscas e descobertas de identidades, de linguagens, de possibilidades de exploração de novos conceitos. As idéias vão se desenvolvendo e outros temas acabam surgindo, dando corpo a uma intensa manifestação plural onde se enquadram Jonir Figueiredo, Henrique Spengler, Miska, Lú Sant’Anna, Neide Ono e Carla de Cápua.

Nos anos 90 ocorre um distanciamento dos temas regional e indígena. A geografia e assuntos da cultura local aos poucos vão desaparecendo nas abordagens dos artistas dessa geração. Começa-se a dialogar com as linguagens mais contemporâneas na pesquisa de novos procedimentos, exploração de outros suportes, diferentes maneiras de representar. Nesse cenário deve-se registrar a importante atuação do Museu de Arte Contemporânea – MARCO - como mecanismo de fortalecimento da atividade artística no Estado, uma vez que o museu constituiu-se como espaço referencial na formação de repertórios visuais, abrigando importantes eventos como o Salão de Artes Plásticas e exposições dos artistas locais e de outras regiões.

Esse período é marcado pela busca de novas formas de expressão no campo artístico. Uma rica diversidade de idéias e procedimentos contribuiu para o grande salto da produção em Campo Grande, o que acabaria se irradiando em outras cidades do interior. Entre os artistas dessa geração estão Ana Karla Zahran, Beto Lima, Carlos Nunes, Edson Castro, Anelise Godoy, Cello Lima, Paulo Rigotti, Maria Helena Belalian, Genésio Fernandes, Dagô, Lúcia Barbosa e Ovini Rosmarinus.

Na arte primitiva surge um grupo de artistas que ganha destaque em mostras temáticas, conquistando espaço num ambiente em transformação e constante movimento, o que contrasta com o gesto e o ritmo intimista dessa linguagem, como é o caso de Juracy Mello e Isaac Saraiva.

A partir de 2000, nota-se a nítida mudança na atitude do fazer de uma nova leva de artistas. Com a transferência do MARCO para a sede definitiva, em 2002, grandes possibilidades foram vislumbradas devido às dimensões do espaço físico que permitiu aos artistas uma maior dinâmica para a concepção de seus trabalhos. Estamos então diante de uma situação marcada pela tentativa de abandono das linguagens tradicionais, dando vazão à curiosidade e proposição de outros mecanismos de expressão. São artistas que tentam freqüentemente desenvolver pesquisas e experimentações em sintonia com o tempo presente: ousar é a palavra chave, investigar é a solução.

Uma geração de jovens que busca informações constantes para compor o campo de suas análises e inquietações, criando obras com diferentes narrativas na busca de entender a relação entre a linguagem e seus significados. O importante é poder perceber que a articulação de idéias resultante desse fluxo contínuo de conhecimento proporciona uma mobilidade de ação que reflete naquilo que é produzido. Isso é bem perceptível na produção de Douglas Colombelli, Evandro Prado, Priscilla Paula Pessoa e Buga.

Através desse panorama podemos entender alguns períodos distintos na recente memória das artes plásticas em Mato Grosso do Sul, uma trajetória que em três décadas buscou refletir os momentos históricos e os registros sociais que compuseram todo um processo cultural, pontuada pela diversidade imagética e por momentos que exemplificam a contínua expansão da produção artística sempre em busca de outros caminhos.

Uma história ainda em formação, mas, que já possui significativos elementos que representam as transformações culturais que contribuíram para a configuração de nossa identidade visual.

Rafael Maldonado


Referências Bibliográficas
ESPÍNDOLA, Humberto. Um panorama da história das artes plásticas em Mato Grosso do Sul através do acervo do MARCO. Campo Grande, MS, 2004.
FIGUEIREDO, Aline. Artes Plásticas no Centro-Oeste. Cuiabá, Edições UFMT/MACP, 1979.
MENEGAZZO, Maria Adélia. Alquimia do verbo e das tintas nas poéticas de vanguarda. Campo Grande, MS: CECITEC/UFMS, 1991.
MENEGAZZO, Maria Adélia. Regionalismo: local da cultura/cultura local. Estudos de linguagem: inter-relações e perspectivas. Campo Grande, MS: Ed.UFMS, 2003.
ROSA, Maria da Glória Sá. Artes Plásticas em Mato Grosso do Sul/ Maria da Glória Sá Rosa, Idara Duncan, Yara Penteado. Campo Grande, MS: M.G.S.Rosa, I. Duncan, Y.Penteado, 2005.

 

Fotos da Sala Grande:

 

Fotos da Sala Média:

 

Fotos da Sala Preta:

 

Fotos da Intervenção de Evandro Prado:

 

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