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Esculturas e Objetos do Acervo do MARCO

Narrativas do tridimensional

Quantas paisagens podemos percorrer através dos percursos tridimensionais na arte? Que sensações nos ocorrem no momento em que exploramos uma obra escultórica? Na obra tridimensional nossa curiosidade tátil aflora e somos tentados a tocar porque os olhos já não nos bastam. Estamos quase sempre diante de possíveis descobertas seduzidos pela plasticidade de formas, texturas, movimentos.

 Em O estúdio de Alberto Giacometti, Jean Genet diz: “É inevitável tocar as estátuas: afasto os olhos e a minha mão prossegue sozinha à descoberta: pescoço, cabeça, nuca, ombros... Confluem sensações na ponta dos dedos. Nenhuma se repete, de modo que a mão percorre essa paisagem variada e viva”.

O tridimensional desafia o espaço inserindo-se nele com propriedade de algo que é autônomo, não admitindo do observador uma abordagem visual linear. Somos então levados a adotar procedimentos de leitura estética que nos prepara para o embate entre narrativa e percepção, entre o visual e o tátil, entre o espaço e a obra. Conclui ainda Genet: “Não se aborda uma obra de arte – quem duvida? – como se aborda uma pessoa, um ser vivo ou outro fenômeno natural. Poema, quadro, estátua, exigem exame com um número de qualidades preciso”.

A obra tridimensional nos convida a uma experiência que nos faz pensar, sobretudo, na descontinuidade do espaço, na proporção e no intervalo entre as formas, na relação entre volumes e o contínuo jogo entre cheios e vazios. Essa forma de exame nos torna aptos a compreendê-la e sermos por ela tocados.

O abrangente repertório tridimensional pode ser classificado desde a escultura em seu conceito tradicional,  assim como relevos, objetos e instalações. Frederico de Morais agrega ainda como um desdobramento final de sua leitura da linguagem escultórica a performance, levando em conta a interpretação da modalidade como uma espécie de “escultura no tempo”.

Buscar discursos curatoriais específicos nas coleções dos museus de arte (abrigadas nas reservas técnicas) são possibilidades que contribuem para tornar cada vez mais visível a potencialidade de cada gênero artístico. Esse recorte no acervo do MARCO faz um diálogo com diversas manifestações escultóricas, confrontando processos, materiais e as concepções de espaço propostas em cada obra.

No conjunto selecionado houve o interesse por obras tridimensionais que apresentam narrativas sobre matéria, temporalidade, estranhamento; ilustrando a importância de cada uma delas como elementos retentores de uma pluralidade de informações, como diários silenciosos que guardam memórias e sensações veladas resultantes da cumplicidade entre o objeto concebido com o seu criador.

O encontro com o objeto artístico proporciona o exercício de desprendimento que nos aproxima desses valores inseridos complacentemente pelo artista nas obras. A arte é uma mediação entre o discurso do criador com o olhar do espectador, é o registro do acúmulo de experiências e sentidos diluídos em formas, cores, suportes. Cada obra contém essa matéria que permanece intacta no tempo para cada momento de leitura, para cada julgamento que é lançado sobre ela, para cada interpretação que lhe dará novos significados.

São aspectos que reverenciam e legitimam o espaço do museu enquanto propositor de reflexão sobre nossa realidade. O ambiente aurático da instituição museológica pode criar diversas percepções sobre diferentes percursos históricos e nos aproximar de novas formas de entendimento da memória cultural que construímos.

Propicia uma visão poética da arte que amplia o campo de significação do artista como um intérprete do seu tempo, como protagonista de uma história que pode ser constantemente reconduzida, recontada e ressignificada. Possibilidades que levaram Rainer Maria Rilke a afirmar que “o artista é a eternidade que se projeta sobre o presente”.

Rafael Maldonado
Março de 2008

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