
Evandro
Prado - “Estandartes”
Evandro Prado: o sagrado dessacralizado
É das necessidades e insatisfações
espirituais e materiais da cultura ocidental cristã que
trata a obra de Evandro Prado. Nela questões
advindas da religião, da política e do
mercado cruzam-se na tessitura de um discurso plástico
que reúne elementos extraídos da tradição
a outros retirados do contexto hodierno.
Nos trabalhos criados pelo artista a manipulação
de imagens de segunda geração ocorre
com a apropriação de ícones do
catolicismo popular brasileiro, e com o questionamento
de seus estatutos iconográfico e de significação. As
representações de personagens sagradas
em embalagens e em meios os mais diversos, possuem
algo de kitsch, de banal e de descartável, resultado
de suas inserções no sistema das imagens
de consumo da sociedade atual. Walter Benjamin coloca
que a reprodução em alta escala acarreta
a extração da imagem da esfera sagrada
e sua conseqüente introdução numa
ordem expositiva onde acontece a perda da “aura”,
do elemento único e venerável contido
na imagem. São essas representações
do sagrado sem “aura”, dessacralizado pela
multiplicação, que Prado manipula com
sentido crítico, operando com interseções
entre a fé e a dúvida, a candura e a
violência, o gozo e a dor, a vida e a morte.
Ícones religiosos produzidos, como qualquer
outro produto, para o consumo massificado de uma sociedade
que aspira a aquisição de valores espirituais
e bens materiais capazes de amenizar a sua crise subjetiva.
Entretanto, tal crise é irresoluta à medida
que a subjetividade atual encontra-se manipulada pelo
processo de consumo simbólico gerenciado pela
indústria e pelos aparelhos publicitários.
Apesar da multiplicação dessas imagens
e dos discursos que as empregam, o processo cultural
da sociedade contemporânea revela a ausência
de lugar para o sagrado – que traz em si a noção
de eterno –, pois nela tudo é descartável,
efêmero e principalmente insatisfatório.
Nas obras da série “Estandartes”,
imagens dos santos católicos são desconstruídas
e reconstruídas com outros materiais e procedimentos.
Sobre os suportes de tecidos diversos, objetos como
terços, medalhas devocionais, munição
para armas, pintura e oxidação, costura
e bordado são empregados na reformulação
dos ícones que convivem com armas brancas e
de fogo, com objetos de aprisionamento e de tortura
e com elementos decorativos que aludem aos oratórios
e altares barrocos. Um crucifixo ladeado por revólver
e metralhadora, Nossa Senhora na presença de
uma espada, São Jorge acorrentado, são
imagens que todos podem reconhecer, mas também
estranhar, uma vez que são apresentadas com
elementos que não constituem suas iconografias
tradicionais. A adjunção destes elementos
anuncia o estado de crise da sociedade atual, onde
a insegurança, a fragilidade, o medo e o terror
sitiam o cotidiano, conferindo à existência
um sentido muito fugaz.
Há nestas obras algo remanescente das Vanitas.
Este gênero de natureza morta alegórica
e de conteúdo religioso e mórbido que
foi desenvolvido, sobretudo, durante o século
XVII como instrumento da revisão espiritual
da época. As Vanitas alertam
para a efemeridade da vida, para o perigo das vaidades
e ostentações cultuadas pela sociedade,
apontam para a eminência da morte. Os crânios
presentes nas Vanitas se exibem como a imagem
do fim, assim como as armas apresentadas por Prado
se mostram como figuras da morte próxima. Contudo,
não mais a morte natural, e sim a morte provocada.
A representação de elementos referentes à morte
e à dor sempre estive presente na iconografia
católica, especialmente nos ícones dos
santos mártires, nos quais o corpo em
chagas, sacrificado em nome da fé, impacta pelo
que possui de violento na formação da
culpabilidade humana. Mas na obra de Prado, diante
da presença dos símbolos da violência
e da morte, surge o questionamento sobre o pecado e
o sentimento de culpa como construções
ideológicas que violentam subjetivamente a cultura
ocidental, e a faz ainda mais despreparada para lidar
com a morte. A representação do sagrado
na cultura cristã marcada pelas imagens da violência
e da morte é traumática no imaginário
ocidental.
Por fim, desejo chamar a atenção para
o fato de que a presença da iconografia católica
na cultura visual brasileira tem uma importância
capital. Para Gilberto Freyre, o catolicismo atuou
na formação da sociedade brasileira como
um cimento que logrou amalgamar todas as diferenças
existentes no Brasil. Sobretudo para os artistas originados
no interior do país essa referência é muito
forte, seja ela vinculada à iconografia erudita
dos altares das igrejas seja à interpretação
popular, e se confirma nas obras do mato-grossense
João Sebastião, dos goianos Siron franco
e Ana Maria Pacheco, do mineiro Farnese de Andrade,
e dos cearenses Leonilson e Efraim Almeida.
Com os trabalhos apresentados nesta exposição
Evandro Prado desdobra sua pesquisa sobre os ícones
do catolicismo, atualizando um gênero da tradição
pictórica ocidental que estava esquecido e o
contextualizando dentro do quadro de angústias
e ansiedades da cultura contemporânea.
Divino Sobral
Artista plástico e curador independente.
Goiânia, 9 de março de 2008.





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