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Coletiva dos 100 Anos da Imigração Japonesa

Se a nossa presença no mundo se dá no espaço, nossa origem e permanência se dão no tempo. Assim, não é de se espantar que tempo e espaço sejam questões ainda prementes para as artes em nossos dias. A coletiva de artistas que comemora os 100 anos da imigração japonesa no Brasil as põe em evidência por meio de objetos e formas concretas, mostrando que se a tradição nunca permanece intocável e que é possível com ela dialogar. Pela primeira vez reúnem-se os artistas sul-mato-grossenses que têm em comum, direta ou indiretamente, a origem nos primeiros imigrantes.

Não se espere das paisagens de Masahiko Fujita uma retomada pura dos mestres gravadores japoneses ou dos clássicos renascentistas, mas é evidente que trazem a mistura dessas tradições no modo de compor o espaço. Se o representado é reconhecido, o ângulo adotado demonstra um modo de olhar diferente, ensimesmado, resultando em uma produção rica e original. Fujita é mestre paisagista, formador de artistas sul-mato-grossenses que passaram por seu atelier.

Rose Kanamura
utiliza signos gráficos, basicamente linhas, e delas retira o sentido plástico e estético de sua obra. Os relevos em madeira apresentam jogos entre positivo/negativo, criando formas geométricas livres, porém ritmadas. Também livre é a escolha do suporte de Sayo – bolas de isopor de tamanhos variados, cobertas por um mosaico composto de miçangas coloridas que remete às estampas florais comuns na porcelana e nos tecidos japoneses. Essencialmente decorativa, é um exemplo bem sucedido de arte aplicada.

Os trabalhos expostos por Áurea Katsuren têm origem numa outra prática: a restauração de obras de arte. Cada pincelada impressa sobre a tela ou papel guarda a memória e a história de uma outra obra, de um outro artista. São pinceladas sobrepostas que, em conjunto, constroem um emaranhado de linhas e formas que remetem às linhas e formas da caligrafia japonesa. São acontecimentos que partem de “uma prática, uma coincidência, uma saída, uma surpresa e uma ação”, como afirma Barthes a respeito dos trabalhos de Cy Twombly, um referencial evidente na obra de Áurea.

Renato Arakaki
cria formas dobrando o espaço, materializando suas linhas em papel e madeira. Um lugar pode ser todos os lugares. Não há referenciais localizando suas peças. À idéia de que o espaço pode ser tocado e retocado, aberto, dobrado e costurado some-se a limpeza das formas e a autonomia de suas representações. Onde é agora? Quando é ali? Uma arquitetura minimalista mantém estas questões em suspenso, reafirmando a necessidade de a obra de arte permanecer aberta, como as fendas no papel, provocando os nossos sentidos.

Mauro Yanaze
materializa a relação entre a origem e o agora por meio da semente em seus vários estágios de germinação: fechada, rachada e finalmente aberta, dando viva à vida. Aos montes, as sementes criam uma imagem de força, de vida latente e de perpetuação da origem. Ao mesmo tempo, elas constroem o sentido de elementos invioláveis que acentuam a idéia de alimento e de proteção. Essas imagens e sentidos podem ser percebidos no espaço de união da forma e da matéria orgânica, o barro/a cerâmica, isto é, no modo como o artista trabalha a reciprocidade entre a imaginação e as coisas.

Também é o barro o elemento que se deixa moldar pela força expressiva e pelo rigor construtivo das formas orgânicas da obra de Neide Ono. Os jardins suspensos apresentam sementes cerâmicas com hastes de ferro que surpreendem pela repetição quando observados de diferentes pontos de vista. A
cada deslocamento do observador, desloca-se a imagem resultante, num perpétuo refazer-se, porque cada semente tem uma forma própria. Portanto, se tudo na arte existe para o homem, os objetos criados pela artista têm a capacidade de evidenciar essa relação, mostrando abertamente suas qualidades visuais e táteis, seu modo de pertencer ao mundo físico

O caráter indicial da fotografia é sempre uma garantia para a leitura e compreensão do fotografado. No entanto, sabe-se que a escolha do ponto de vista e a presença do punctum, aquilo que provocou o olhar do fotógrafo e que ali permanecerá para sempre, são dados que concorrem para a construção do sentido final da imagem. Roberto Higa faz desses elementos o motivo de suas fotografias. O inegável caráter referencial que elas apresentam é abalado e provocado pela introdução de algo que o modifica, seja destacando-o do contexto, seja anulando a diferença e diluindo sua forma, exigindo do observador uma percepção mais cuidadosa do objeto fotografado.

A prática de uma exposição coletiva, muito mais do que buscar uma identidade, expõe a diferença entre os artistas que dela participam. Se a origem nos primeiros imigrantes japoneses é o que une a todos, a percepção de que o lugar da arte nos torna a todos diferentes está posta.

Maria Adélia Menegazzo
ABCA/UFMS


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