
“Tanê” - Mauro
Yanase
Modulação da forma
São inúmeras as possibilidades desenvolvidas
pelos artistas com o objetivo de construir realidades
estéticas que possam atrair a percepção
do observador para sua matéria.
Vamos falar aqui de uma modalidade artística
que corresponde à categoria tradicional de escultura
- a cerâmica. Em um estudo sobre a linguagem
da escultura, William Tucker menciona que aos catorze
anos Rodin foi levado a freqüentar os cursos livres
da Petite École, nos quais tinha a intenção
de fazer aquilo que mais o interessava: desenhar. Mas
foi nessa escola que teve contato com as aulas de modelagem,
descobrindo então um novo campo de expressão
- “Pela primeira vez vi a argila dos artistas,
achei que tinha subido aos céus”, diria
ele mais tarde. Naquele instante, segundo Tucker, Rodin
resolveu que queria ser um escultor.
A argila tem exercido um grande poder de sedução
já que possibilita desenvolver habilidades artísticas
no contato com materiais diretamente relacionados com
a natureza. A maleabilidade do barro permite que nesse
contato possam ser estabelecidas sensações
táteis que efetuam trocas de energia entre matéria
e corpo. Tucker, no mesmo ensaio, comenta que “o
duradouro compromisso de Rodin com a argila demonstrava
a total responsabilidade para com cada um dos estágios
da obra, em contraste com o uso generalizado que os
escultores acadêmicos faziam do mármore
(...) em que muito provavelmente nunca tocavam, já que
deixavam aos assistentes a transposição
para o mármore”.
Embora com a experiência do manuseio direto
e objetivo dos materiais que utilizava para a elaboração
de suas esculturas, Brancusi percebeu que o cerne da
obra de Rodin residia justamente na relação
do processo de modelagem da argila e da realização
de volumes de natureza aditiva em uma matéria
mole e auto-aderente. A intimidade do artista com essa
matéria permitiu a elaboração
de uma arte que se movia na direção do
espaço do espectador. Já em Brancusi
a escultura, o entalhe da madeira, se estruturavam
a partir de uma convenção compacta e
fechada, concentrada e silenciosa.
No percurso da linguagem escultórica da tradição
clássica aos nossos dias podemos perceber a
força plástica de elementos aparentemente
banais na transposição de valores e proposições
reconhecidos pela história da arte. E é justamente
na simplicidade do barro, na singularidade da “argila” que
Mauro Yanaze constrói sua poética no
tempo presente. Dando o tratamento necessário
ao ato de modelar o artista incorpora procedimentos
que transformam a fragilidade temporal da argila em
algo mais resistente. O fogo que queima o barro numa
temperatura elevada (1200°C) modifica as propriedades
do material fazendo com que após a resfriação
ele assuma coloração e texturas específicas,
impossíveis de serem obtidas a baixas temperaturas.
O processo “alquímico” da cerâmica
não pode ser totalmente controlado e é na
surpresa da abertura final do forno que o ceramista
descobre se os resultados foram bem sucedidos. A cerâmica
requer uma postura mais intimista, um ritmo lento onde
a repetição de gestos comedidos para
amassar, enrolar e moldar constitui um ritual harmonioso,
uma coreografia que busca o equilíbrio entre
movimentos, formas e cores.
Nesta nova série de esculturas Mauro Yanaze
elabora as formas a partir do tema “Tanê”,
palavra japonesa que significa “semente”.
Nitidamente percebemos a predominância da estrutura
circular no conjunto que se repete com sutis variações
nos detalhes e nos volumes. Na repetição
dos elementos, Yanaze propõe arranjos de grupos
de peças quase-idênticas para estabelecer
novas relações de sentido com o espaço
transformando o projeto em instalação.
Atualiza assim a tradição milenar da
cerâmica aos conceitos e dimensões da
contemporaneidade.
As “Sementes” de Mauro Yanaze são
o resultado de dedicação e do processo
de amadurecimento do seu trabalho, pesquisando possibilidades
para compor uma obra enriquecida pela experiência
do fazer. Um comprometimento com a arte que impulsiona
uma produção criativa com referências
bem estabelecidas. Exercícios de modulação
da forma que aproximam valores culturais do ocidente
e oriente.
Rafael Maldonado
Curador, Coordenador do Museu da Imagem e do Som de
MS
Junho 2008




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