
ERA UMA VEZ...
Contar histórias
talvez seja o que há de
mais universal na relação entre os homens
e desde sempre. Ao enunciarmos “Era uma vez...”,
conduzimo-nos, e a quem nos ouve, para outro tempo,
outro espaço, quando e onde tudo é possível.
Criamos mitos, histórias narradas buscando a
explicação de determinados acontecimentos
por meio do exercício da imaginação.
Nesta individual, Ana Ruas apresenta histórias
que certamente ouviu contar, recortando elementos de
fácil identificação, submetendo-os
a um processo particular de tradução.
Da narrativa literária para a narrativa visual,
plástica, resultado da manipulação
de signos e objetos conservados pela memória
afetiva, a artista abre para o observador a possibilidade
de recuperar a própria história de leitura,
na leitura das crianças que inventam suas histórias. É possível,
então, compor mundos a partir de narrativas
que ouvimos naquele tempo, quando também tudo
podíamos, inclusive reinventar histórias: “Espelho,
espelho meu! Quantos sapatos de cristal foram quebrados
nos jardins da princesa que adormeceu pela maçã encantada?
Quantos sapos se transformaram em cavaleiros que salvaram
crianças perdidas na floresta? As belas tranças
alçaram o príncipe valente à torre
mais alta diante da fera que conduziu um gato de botas
aos braços de mamãe gansa...”
Não importa o percurso que
venhamos a adotar para reconstruir cada pedaço
da nossa história
pessoal de leitura, ele certamente será perpassado
por uma dessas narrativas. Nas telas, Ana Ruas acentua
esta eterna presença utilizando, por exemplo,
cores fortes, apaixonadas, visualmente provocantes,
como a combinação do rosa com o vermelho
e sua complementar, o verde, os vários tons
de azul, que saltam em nossa frente e nos obrigam a
ver suas máscaras, recortes e colagens. Ou,
por outro lado, introduz o branco, velando a superfície
do espelho que perde a capacidade de refletir a imagem
e ganha a possibilidade de ser novamente interrogado,
(não mais pela madrasta), mas por flores e maçãs. Embora
a moldura dos espelhos aponte limites, a superfície
vai além, dobrando-se no espaço infinito.
O suporte também conta histórias. Uma
toalha de mesa bordada na infância, o colorido
ou a estampa de um tecido, recortada e colada sobre
a superfície da tela, transformam-se em pontos
de partida para a criação de um universo
plástico-narrativo à beira do kitsch.
O valor retórico de todos estes elementos é evidente:
apelam à sensibilidade disponível do
leitor para a construção de sentidos.
É só ouvir: Era uma vez...Once upon a time...Il était
une fois...C’era una volta...Era una vez...não importa. Depois,
nunca somos os mesmos, pois tudo convida ao jogo e à troca de experiências.
Maria
Adélia Menegazzo
UFMS/ABCA
Ana Luisa Ruas (Machadinho,RS,1966)
Formada em Artes Plásticas, Universidade de
Passo Fundo/UPF/RS-1988
Curso de Extensão na
UNICAMP/Campinas/SP-1989
Curso de Especialização
em Arte e Novas Tecnologias pela UFMS/MS
Realiza as
primeiras Pinturas Murais em 1990/RS e desde 1996 em
Campo Grande /MS Idealizadora do projeto A Cor das
Ruas/MS – 2001
Workshop Procedência e Propriedade com Charles
Watson – Rio de janeiro/RJ - 2003
Participa do
Projeto Intervenção
no MARCO – Museu
de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul/MS-
2004
Participa de diversas Exposições
Individuais e Exposições Coletivas, entre
elas Projéteis
de Arte Contemporânea – Redemergência
/FUNARTE /Rio de Janeiro/RJ- 2005
www.anaruas.com.br
/ anaruas@terra.com.br














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