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Plantas das salas

Do fundo da carne

A expressão do silêncio feito das (des)contrações da carne. Um silêncio doméstico e ao mesmo tempo estrangeiro. É como se Helena quisesse nos surpreender por instantes, lembrando-nos do pó em que nos apagaremos para sempre. Aparições, retalhos de pele, corpos-em-suspensão, descolados do organismo que lhes doou existência. Materialidade silenciosa que guarda em si um mistério ontológico e que revela o quanto a arte torce o banal revelando seu transcendental. Carne-tempo que ao nos olhar lançanos para começos e confins. É como se Helena, pescadora de potências, tivesse, com seu anzol, nos desvestido de qualidades. Somos, diante de suas peças, apenas carne monstruosa que, não sendo corpo, torna-se, entretanto, seu principal suporte. Carne-peleanimal que nos contempla desde seus puros potenciais daquilo que poderemos nos tornar. Carne que se fará e que fez corpo, e que, no pequeno espelho, podemos reconhecer como o avesso que nos concerne e que será sempre mais do que poderemos vir-a-ser. Carne-da-multidão. Elementar e comum, desesperadamente fugidia porque não pode ser inteiramente enfeixada nos órgãos hierárquicos do corpo político, organizado e nomeado. Carne-pele, assustadora pelo seu informe e capacidade flexível e que nos aproxima do thorubos da língua, esse lúgubre silêncio sobre o qual nada se diz e se teme por nada dizer, pois ele interpela o Eu para que o corpo – e não este Eu – fale por todos os seus poros e extremidades. Linguajar de rumorejos, de gagueiras, de balbucios, silêncio inumano que nos faz sentir uma vida em nós, sem rosto, sem voz, muda e apenas com olhos que nos fitam. Poder soturno do silêncio preenchido de intensidades que nos relança à densa horda de vida inumana da qual só nos restam sombras sob as quais sorvemos sua tumultuosa e indomável energia. Carne-mapa-mundi, mapa de nossos desertos e de suas ocupações e migrações, carne-mapa que traça a geografia do que é possível diante dos signos da vida, que se desenvolve e involui diante de insinuações, enigmas e sinfonias. Carne que transborda as margens do viver, que o excede, que é de todos e de ninguém, congregando-nos no plano do comum e do impessoal, tornando-nos potência de devires e de novos presentes. Carne-pele que nos lembra que o rosto é apenas uma contingência necessária, pois tudo o que nela e dela emerge será tragado pelo vermelho sangue do fundo.O rosto, o Eu, aqui, nos retraem para o seu apagamento e, então, entendemos que uma das coisas que nos resta é reclinarmo-nos sob e sobre as sombras poderosas, tal como se tentássemos compreender a espantosa vontade de uma árvore.

Tania Mara Galli Fonseca
23 de julho de 2008

 

Impressões que re-im-pelem

“Corpos-pele”, “livros de auto-ajuda”, “retratos”. Estas três séries fazem parte da instalação. É uma investigação que venho desenvolvendo há alguns anos com látex e litografia, e que se aprofunda agora nesta mostra, junto às reflexões que acompanho na pesquisa de doutorado no Instituto de Artes da UFRGS.

O instigante neste o processo é o incessante movimento da forma. O látex inicialmente líquido se alastra, se escorre até seu momento de coagulação. A aguada litográfica, técnica que se faz pela repulsão entre gordura e água, só se acomoda em uma forma informe, depois de 24h. Tempo. Espera. Formas procurando suas formas. Algo incontornável diante das horas. Constante mutação para a matéria que envelhece. Momentos inquietantes de experiência corporal: braços, olhos, nariz, ouvidos, transbordam de novos sentidos a cada “pele arrancada” para ser um outro corpo, livro ou retrato.

Helena Kanaan (UFPel / IAD harkanaan@gmail.com)

 

 

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